domingo, 8 de agosto de 2010

Sempre Picasso


Picasso: neoclássico, cubista, surrealista, ceramista, gravador, escultor, soberbo desenhista, efervescente, exuberante, triste, carrancudo, financista astucioso, sedento de publicidade, o espanhol em combustão permanente, o brincalhão e inventor de charadas, generoso, autor teatral... todas estas características e qualidades estão citadas no artigo Picasso (1881-1973) do livro Experiência Crítica que reune textos de Ronaldo Brito, organizados por Sueli Lima. Esse artigo é um retrato de Picasso, e traz informações que só me fizeram admirá-lo ainda mais:

- sua obra pictórica está incluída no catálogo feito por Christian Zervos com 10 mil ítens, mais 3 mil desenhos , não incluídos, doados a Barcelona, e ainda há a reserva pessoal do pintor, avaliada em 3 mil telas;
- o cálculo de sua produção média anual era de 200 telas, produção que foi respeitada até seus últimos 12 meses de vida;

Diante disso, não sei o que dizer dos pintores que limitam sua produção para manter em alta o preço de suas telas através do controle da oferta x demanda.

Picasso disse um dia: "Pintar é meu hobby. Quando acabo de pintar, pinto de novo para descansar".








Também no livro de Ronaldo Brito se encontra a citação de um texto produzido por Robert Hughes, da revista Times, numa matéria de capa que celebrou os noventa anos do mestre. Nele Robert imaginou o que dava a impressão de ser um dia de rotina na vida desse homem imprevisível:
"Supõe-se que tudo deva começar com um luminoso breakfast de testículos de bode. A seguir, cercado por um rebanho de admiradores e domésticos pombos, ele desce ao estúdio e produz trinta gravuras, dois murais e uma natureza-morta. No almoço, depois de um sapateado diante dos ávidos repórteres de uma equipe da Paris Match, ele ensina ao toureiro Dominguín alguns segredos da arte de demolir um touro. Agora é a vez da olaria, de onde, 83 vasos de cerâmica depois, Picasso convoca seu chofer e sai para capturar três virgens na praia. Elas são defloradas durante a siesta e retiram-se gorgeando graciosamente para escrever suas memórias.

Restaurado, o mestre enche o tempo monótono de espera do jantar com uma dúzia de retratos. A omelete palpita sob seu garfo incapaz de deduzir sua própria sorte. Ela também será convertida num "Picasso". Um silêncio verde e noturno reina no jardim, quebrado apenas pelo clamor surdo de milionários gregos entupindo a caixa de cartas de Picasso com notas de mil dólares na esperança de que ele assine uma delas. Mas o dia terminou..."


É o cara!



domingo, 25 de julho de 2010

Trajetória II


Pois bem, depois de dois cursos de desenho, seguindo a minha lógica de aprendizagem, decidi que deveria conhecer as técnicas de pintura. Matriculei-me então na Escola Caminho das Artes, no curso de Introdução às Técnicas de Pintura, com Ana Maria Villar, grande mestra e incentivadora. Com ela me iniciei no caminho da pintura, o qual continuo percorrendo com prazer, sempre aprendendo e me surpreendendo com sua mágica e poder de sedução.

Foi Ana Maria Villar que me aconselhou a fazer o curso de Edson Calmon, nessa época ministrado na mesma escola. Me encantei com os trabalhos produzidos pelos alunos de Edson, que utiliza a colagem como base para a criação artística e mergulhei de cabeça na experiência. Tudo o que produzo hoje tem por base esse aprendizado.

Reproduzo a seguir trecho de um texto de Edson sobre seu curso que poderá esclarecer um pouco mais sobre sua metodologia:


"Curso de Estímulo à Criatividade Através da Expressão Plástica

Essa metodologia se baseia na teoria que defende a colagem como base imaginativa da criação plástica e até mesmo de um certo tipo de criação literária.


A colagem é um meio que possibilita uma arqueologia pessoal, um instrumento que permite uma investigação inter e intra pessoal, um garimpo do universo interior de cada indivíduo.


Acreditamos que seja um método mais rápido e eficaz que o desenho. A linha é uma operação muito complexa. Salvo para as pessoas que tem habilidade inata para o desenho, o grafismo, esse fio que contorna todos os objetos em nossa vida, é uma abstração que de fato não existe na natureza. O desenho, para quem não o domina de forma espontânea, cria um verdadeiro entrave para o desenvolvimento dos que querem se iniciar nos processos de criação artística.

Percebemos a realidade de forma tridimensional e ela nos apresenta massas de valor e cor que podem ser representadas na superfície de uma tela, de maneira muito mais eficiente, através de um jogo de planos. Dessa forma, a colagem se mostra um processo facilitador muito mais apropriado do que o desenho, da maneira como ele é ensinado nas academias.

Da forma como a aplicamos, a colagem é um método que possibilita o desenvolvimento do pensamento divergente, na medida em que se constitui um fantástico jogo de possibilidade associativas. A criatividade é estimulada na prática desses jogos combinatórios, potencializando a capacidade de estabelecer relações novas com informações que já tínhamos guardadas na memória."


Do curso de Ana Maria Villar, também em primeira mão, divulgo aqui alguns dos trabalhos produzidos durante o aprendizado de algumas das técnicas de pintura, todas tendo o papel como suporte:



Aquarela








Pastel seco







Nankim




Acrílica


terça-feira, 20 de julho de 2010

Trajetória I

Quando resolvi que pintar seria algo especial para fazer num momento particularmente triste de minha vida, me inscrevi num curso de desenho de observação. Como a maioria das pessoas, eu pensava que o primeiro passo para pintar era saber desenhar.

Não tenho talento nato para o desenho e, por isso, até conseguir algo razoável tenho que dispender muito esforço e energia vital. Hoje, vital para mim é pintar.

Com Edson Calmon aprendi que um exímio desenhista não se tornará, necessariamente, um grande artista. Além disso, há diversas formas de se transferir uma imagem para a tela sem recorrer à habilidade do desenho.

Edson, que utiliza a colagem como recurso para a criação em arte nos ensina:


"Grande equívoco pensar que o poder de desenhar é um dom e somente os que o possuem podem desenvolver um processo de criação capaz de colocá-los no patamar da criação artística.

O fato de ter habilidade inata para o desenho não credencia ninguém como artista. O que dá a dimensão de arte a uma obra é a sua fatura estética.

Desenhar é uma ação mágica, elegante e convincente. Com algumas linhas rápidas e espontâneas, o indivíduo pode levar emoção às pessoas e travar com elas um diálogo no plano estético. O desenho não exige nenhuma qualidade excepcional do ponto de vista da destreza manual do sujeito que o pratica, exige sim, do seu sentido intuitivo, da sua capacidade imaginativa e criadora e do seu sentimento.

Um desenho traçado com linhas toscas, sem nenhuma “habilidade” e sem nenhuma ligação com a “realidade” visível, se for oriundo de profunda e verdadeira sensação íntima, pode conter mais vida, mais emoção e beleza do que outro, asséptico, bem confeccionado dentro das normas da boa execução técnica e do exercício da observação externa.

O “excesso de habilidade” pode levar ao maneirismo estéril, à rigidez que acaba por sufocar qualquer possibilidade de emoção estética."

Em primeira mão, vou mostrar para vocês alguns desenhos produzidos na época, entre eles um auto-retrato. Infelizmente nunca mais exercitei o desenho o que, no meu caso, é fundamental para conseguir produzir com alguma qualidade. Em minha última viagem até comprei um pequeno caderno para voltar a desenhar, mas ainda não o fiz. Um dia, quem sabe...




Carvão nº 1





Minha eterna fonte de felicidade




Minha eterna fonte de felicidade de chapéu




Kirk Douglas




Desenho criativo





Auto-retrato

Nenhum fio de cabelo solto
Talvez para não deixar escapar
Qualquer pensamento
Qualquer sentimento
Como se isso fosse possível
Olhos de quem viu de quase tudo
De quem sofreu quase tudo
Que mais haveria para sofrer?
Rosto-estátua, fria
Por que tinha que ter sido assim?
Dessa época só guardo os brincos!


sábado, 26 de junho de 2010

Série Garrafas - 2008















Se você fosse garrafa
Eu seria gênio
Para satisfazer todos os seus desejos

Se você fosse céu
Eu seria nuvem
Para fazer cócegas em suas orelhas

Se você fosse mar
Eu seria cavalo marinho
Para cavalgar suas ondas

Se você fosse terra
Eu seria vulcão
Para fazer ferver suas entranhas

Se você fosse árvore
Eu seria fruto
Para guardar sua semente

Se você fosse tela
Eu seria tinta
Para criar uma obra prima

Se você fosse lua
Eu seria São Jorge
Pra te salvar do dragão

Se você fosse vento
Eu seria saia rodada
Pra mostrar as pernas da bailarina

Se você fosse chuva
Eu seria semente
Pra brotar flor na primavera

Se você fosse música
Eu seria nota musical
Para compor uma sinfonia

Se você fosse real
Eu seria sonho
E juntos seríamos o infinito

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Viagem





Circo - 2001



Foi ao cinema. Sozinha. Como sempre fazia, mesmo antes da separação. Não era como algumas pessoas que precisam de companhia para tudo. Gostava de estar só às vezes. Ir ao teatro ou almoçar não carecia necessariamente de ser um momento dividido com alguém.

Naquele dia talvez estivesse mais emotiva do que o normal e por isso uma conversa, absolutamente banal, despertou nela uma tristeza que transbordou em lágrimas, teimosas, desobedientes à sua ordem de recolher.

À sua frente estava sentado um casal de meia idade, dividindo um lanche, à espera do início do filme. Entre uma mordida e outra em seu sanduiche, o homem disse:

- Toda vez que como este sanduiche lembro daquela viagem que fizemos para...

Parou de ouvir a conversa e começou a pensar em como seria bom ter alguém para conversar e lembrar de momentos vividos juntos, alguém que a compreendesse e estivesse disposto a ouvir com atenção, relembrar detalhes, sabores, cores, cheiros, experiências, descobertas...

Nesse ponto seus olhos começaram a exprimir em lágrimas os seus pensamentos e por alguns instantes desejou envelhecer ao lado de alguém.

Mesmo após duas tentativas fracassadas, ainda espera pelo homem que a levará ao cinema e comentará sobre aquela viagem...

Ainda assim...






Pra Rua Me Levar

Ana Carolina e Totonho Villeroy

Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho onde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus, e que não abro mão
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar, e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
Eu vou lembrar você

É mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar, e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora...


terça-feira, 8 de junho de 2010

Adelaide







Bicho de sete cabeças. Cada uma com mais sete, replicadas ao infinito. Medusa dos trópicos. Mil idéias em desalinho. Em cada boca um pincel. Em cada pincel uma cor. Nasceu Adelaide. Adelaide se esconde sob um arco-íris lilás. Seus olhos são negros, como seu cabelo.
Você consegue vê-la? Nasceu de uma foto onde uma mãe chorava a morte de sua cria. Seu rosto mostrava uma dor imensa, comovente, enquanto acariciava a cabeça da criança, como se quisesse fazê-la renascer, como se não fosse capaz de aceitar aquela partida tão prematura. Vítima da tragédia ocorrida numa escola da cidade russa de Beslan, onde terroristas chechenos provocaram a morte de 344 civis, entre eles 186 crianças, entre elas aquele bebê. Agachada junto a seu filho, aquela mulher era o retrato genuíno da maior de todas as dores, sem escândalo, expressão profunda de uma perda irreparável, tristeza que carregaria para sempre.





quarta-feira, 2 de junho de 2010

Janelas da Alma







Almas
Penadas, almas
Alvas
Almas, alvas
Janelas azuis
Por onde espreitam
Olhos sedentos
Mão segura
Que conduz
Ao caminho inseguro
Do meu delírio
Cerra
Não deixa passar a luz
Quero a escuridão
Da noite sem lua
Sem estrelas
Sem alma




Alma Nua

Vander Lee





Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia
de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta