quinta-feira, 9 de setembro de 2010
domingo, 5 de setembro de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Arte e beleza

Texto de Arnaldo Jabor, publicado no Jornal O GLOBO - 11 de novembro de 2003
"Em outubro, fui a Veneza. Estava precisando mesmo de um pouco de arte, depois de dois anos sem sair, impregnado de todos os bodes do Brasil e do mundo, pois minha profissão atual é ser esponja das notícias e dos fatos que elas escondem. Oito dias em Veneza foram um banho de purificação; na água das banheiras européias boiavam escândalos da Justiça, bandidos do PCC, flutuavam balas perdidas, frases pomposas de ministros, mentiras de fisiológicos, ladrões de casaca, afundavam detritos que acumulo na dura função de comentarista. Até Sharon e Bush sumiam no redemoinho do ralo.
Mergulhei na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e o Ocidente e bateu-me a verdade óbvia: a grande obra de arte só floresce onde há dinheiro. Sim, puros românticos, nos palácios dos Doges, nas igrejas bizantina-cristãs, nos tetos, portais, afrescos, em tudo jorram as encomendas da vaidade dos poderosos ou dos sacerdotes de Deus, que empresavam as oficinas de artesãos, comandadas por gênios como Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grande di San Rocco, na Academia, tudo.
Depois eu fui ver a casa de Peggy Guggenheim, onde estão tesouros da arte moderna dos primeiros 40 anos do século XX. E, em seguida, fui ver a arte contemporânea na Bienal de Veneza. Assim, em oito dias eu vi a Renascença, Modernismo e "pós-modernismo", se esse nome cabe. Foi um show de contrastes que me deu uma certeza: há qualquer coisa de podre na arte contemporânea. Rosnem de ódio, netinhos de Duchamp, gritem "militantes imaginários", uivem instaladores de nada, mas há uma terrível ausência, uma "hiância", como dizia Mallarmé, um grande vazio em museus e bienais. Há uma ausência que danifica a obra de arte: a esperança. Isso mesmo: esperança. Mesmo nas obras de encomenda de duques e cardeais do século XVI, feitas por empregados que podiam ir até em cana se não satisfizessem os poderosos, havia um fervor religioso ou meramente fabril, havia um desejo de retratar uma mudança, uma fé na beleza, nos ventos novos que humanizavam a figura, que criavam a "perspectiva", uma idéia de tempo, de progresso, longe da platitude medieval. A genialidade de artistas como Tintoretto não buscava mais a representação estática de uma imobilidade submissa, mas a captação de um momento de agonia ou de triunfo, de "esperança".
Fui também à Fundação da Peggy Guggenheim, em sua casa à beira do Canal. Lá estão Picasso, Matisse, Kandinsky, Magritte, Pollock, tantos... E é também deslumbrante ver o entusiasmo da nova arte que se desenhava no início do século XX, a arte como a militância por uma beleza construtiva, o olho humano sendo enriquecido, na "esperança" de que a modernidade se aperfeiçoasse, unida às grandes utopias do século XX, como o socialismo e até mesmo o "fascismozinho" do futurismo italiano. Os artistas modernos queriam repensar o mundo nas suas formas, mesmo quando um conceito fosse deprimido, havia na forma e na atitude um desejo visível de mudança para melhor.
Depois, fui ver a Bienal de Veneza. A sensação dominante é a de um vasto depósito de lixo ou de ruínas ou de despejos da civilização. Os pavilhões de todos os países repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiúra, uma recusa de qualquer poiesis , uma clara vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, por ser "burguesa", como se o prazer fosse uma coisa reacionária, "alienada", ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror social e político que nos assola. O problema é que esse desejo de denúncia não deixa um espaço para algo que possa viver, renascer. É como se a própria arte fosse uma babaquice a ser evitada, na linha direta da herança mal-entendida e descontextualizada de Duchamp, o estraga-prazeres dos anos 20.
Só que o mundo mudou muito. Depois do 11 de setembro, principalmente, ficou nítido que o mundo é hoje muito pior que qualquer representação deprimida. A destruição que vemos na vida, o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, o beco-sem-saída do racismo e do fundamentalismo, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda, está muito além de qualquer "denúncia" artística; o mal é tão profundo que denunciá-lo mecanicamente destruindo a própria arte como uma "prova do crime" está virando uma ociosa cumplicidade.
A Bienal de Veneza (furada, aqui e ali, por alguns talentos individuais, claro) virou um parque temático de deprimidos, um hospital de paranóicos, um muro de lamentações inúteis. Não adianta mais "chocar" ninguém, pois nada é mais chocante que as chuvas de bombas, a miséria global e a estupidez universal do inferno de hoje. O absurdismo do pós-guerra, nos anos
Nunca esqueço da frase de Stravinsky "A obra de arte deve ser exaltante ". Não se trata de uma cegueira complacente com o erro, mas uma ação exaltante da vida, da existência humana, exaltante de algo que está se perdendo. Muitos artistas se acham "militantes", mas estão abrindo mão da reflexão na arte para o eixo do mal capitalista. Críticos e curadores seguem de cabeça baixa, sem coragem de denunciar oportunismos, por medo de serem chamados de caretas ou reacionários. Será que o "novo" não pode ser um "belo" que denuncie, com sua luz, sua esperança, a injusta vida?
Digo isso, porque, se o negócio for eventos de destruição e crítica do capitalismo, ninguém é melhor artista que os homens-bomba e o Osama Bin Laden."
Eu, assino em baixo!
domingo, 8 de agosto de 2010
Sempre Picasso
Picasso: neoclássico, cubista, surrealista, ceramista, gravador, escultor, soberbo desenhista, efervescente, exuberante, triste, carrancudo, financista astucioso, sedento de publicidade, o espanhol em combustão permanente, o brincalhão e inventor de charadas, generoso, autor teatral... todas estas características e qualidades estão citadas no artigo Picasso (1881-1973) do livro Experiência Crítica que reune textos de Ronaldo Brito, organizados por Sueli Lima. Esse artigo é um retrato de Picasso, e traz informações que só me fizeram admirá-lo ainda mais:
- sua obra pictórica está incluída no catálogo feito por Christian Zervos com 10 mil ítens, mais 3 mil desenhos , não incluídos, doados a Barcelona, e ainda há a reserva pessoal do pintor, avaliada em 3 mil telas;
- o cálculo de sua produção média anual era de 200 telas, produção que foi respeitada até seus últimos 12 meses de vida;
Diante disso, não sei o que dizer dos pintores que limitam sua produção para manter em alta o preço de suas telas através do controle da oferta x demanda.
Picasso disse um dia: "Pintar é meu hobby. Quando acabo de pintar, pinto de novo para descansar".



Também no livro de Ronaldo Brito se encontra a citação de um texto produzido por Robert Hughes, da revista Times, numa matéria de capa que celebrou os noventa anos do mestre. Nele Robert imaginou o que dava a impressão de ser um dia de rotina na vida desse homem imprevisível:
"Supõe-se que tudo deva começar com um luminoso breakfast de testículos de bode. A seguir, cercado por um rebanho de admiradores e domésticos pombos, ele desce ao estúdio e produz trinta gravuras, dois murais e uma natureza-morta. No almoço, depois de um sapateado diante dos ávidos repórteres de uma equipe da Paris Match, ele ensina ao toureiro Dominguín alguns segredos da arte de demolir um touro. Agora é a vez da olaria, de onde, 83 vasos de cerâmica depois, Picasso convoca seu chofer e sai para capturar três virgens na praia. Elas são defloradas durante a siesta e retiram-se gorgeando graciosamente para escrever suas memórias.
Restaurado, o mestre enche o tempo monótono de espera do jantar com uma dúzia de retratos. A omelete palpita sob seu garfo incapaz de deduzir sua própria sorte. Ela também será convertida num "Picasso". Um silêncio verde e noturno reina no jardim, quebrado apenas pelo clamor surdo de milionários gregos entupindo a caixa de cartas de Picasso com notas de mil dólares na esperança de que ele assine uma delas. Mas o dia terminou..."
É o cara!
domingo, 25 de julho de 2010
Trajetória II
Pois bem, depois de dois cursos de desenho, seguindo a minha lógica de aprendizagem, decidi que deveria conhecer as técnicas de pintura. Matriculei-me então na Escola Caminho das Artes, no curso de Introdução às Técnicas de Pintura, com Ana Maria Villar, grande mestra e incentivadora. Com ela me iniciei no caminho da pintura, o qual continuo percorrendo com prazer, sempre aprendendo e me surpreendendo com sua mágica e poder de sedução.
Foi Ana Maria Villar que me aconselhou a fazer o curso de Edson Calmon, nessa época ministrado na mesma escola. Me encantei com os trabalhos produzidos pelos alunos de Edson, que utiliza a colagem como base para a criação artística e mergulhei de cabeça na experiência. Tudo o que produzo hoje tem por base esse aprendizado.
Reproduzo a seguir trecho de um texto de Edson sobre seu curso que poderá esclarecer um pouco mais sobre sua metodologia:
"Curso de Estímulo à Criatividade Através da Expressão Plástica
Essa metodologia se baseia na teoria que defende a colagem como base imaginativa da criação plástica e até mesmo de um certo tipo de criação literária.
A colagem é um meio que possibilita uma arqueologia pessoal, um instrumento que permite uma investigação inter e intra pessoal, um garimpo do universo interior de cada indivíduo.
Acreditamos que seja um método mais rápido e eficaz que o desenho. A linha é uma operação muito complexa. Salvo para as pessoas que tem habilidade inata para o desenho, o grafismo, esse fio que contorna todos os objetos em nossa vida, é uma abstração que de fato não existe na natureza. O desenho, para quem não o domina de forma espontânea, cria um verdadeiro entrave para o desenvolvimento dos que querem se iniciar nos processos de criação artística.
Percebemos a realidade de forma tridimensional e ela nos apresenta massas de valor e cor que podem ser representadas na superfície de uma tela, de maneira muito mais eficiente, através de um jogo de planos. Dessa forma, a colagem se mostra um processo facilitador muito mais apropriado do que o desenho, da maneira como ele é ensinado nas academias.
Da forma como a aplicamos, a colagem é um método que possibilita o desenvolvimento do pensamento divergente, na medida em que se constitui um fantástico jogo de possibilidade associativas. A criatividade é estimulada na prática desses jogos combinatórios, potencializando a capacidade de estabelecer relações novas com informações que já tínhamos guardadas na memória."
Do curso de Ana Maria Villar, também em primeira mão, divulgo aqui alguns dos trabalhos produzidos durante o aprendizado de algumas das técnicas de pintura, todas tendo o papel como suporte:
Aquarela





terça-feira, 20 de julho de 2010
Trajetória I
Não tenho talento nato para o desenho e, por isso, até conseguir algo razoável tenho que dispender muito esforço e energia vital. Hoje, vital para mim é pintar.
Com Edson Calmon aprendi que um exímio desenhista não se tornará, necessariamente, um grande artista. Além disso, há diversas formas de se transferir uma imagem para a tela sem recorrer à habilidade do desenho.
Edson, que utiliza a colagem como recurso para a criação em arte nos ensina:
"Grande equívoco pensar que o poder de desenhar é um dom e somente os que o possuem podem desenvolver um processo de criação capaz de colocá-los no patamar da criação artística.
O fato de ter habilidade inata para o desenho não credencia ninguém como artista. O que dá a dimensão de arte a uma obra é a sua fatura estética.
Desenhar é uma ação mágica, elegante e convincente. Com algumas linhas rápidas e espontâneas, o indivíduo pode levar emoção às pessoas e travar com elas um diálogo no plano estético. O desenho não exige nenhuma qualidade excepcional do ponto de vista da destreza manual do sujeito que o pratica, exige sim, do seu sentido intuitivo, da sua capacidade imaginativa e criadora e do seu sentimento.
Um desenho traçado com linhas toscas, sem nenhuma “habilidade” e sem nenhuma ligação com a “realidade” visível, se for oriundo de profunda e verdadeira sensação íntima, pode conter mais vida, mais emoção e beleza do que outro, asséptico, bem confeccionado dentro das normas da boa execução técnica e do exercício da observação externa.
O “excesso de habilidade” pode levar ao maneirismo estéril, à rigidez que acaba por sufocar qualquer possibilidade de emoção estética.
Em primeira mão, vou mostrar para vocês alguns desenhos produzidos na época, entre eles um auto-retrato. Infelizmente nunca mais exercitei o desenho o que, no meu caso, é fundamental para conseguir produzir com alguma qualidade. Em minha última viagem até comprei um pequeno caderno para voltar a desenhar, mas ainda não o fiz. Um dia, quem sabe...




Nenhum fio de cabelo solto
Talvez para não deixar escapar
Qualquer pensamento
Qualquer sentimento
Como se isso fosse possível
Olhos de quem viu de quase tudo
De quem sofreu quase tudo
Que mais haveria para sofrer?
Rosto-estátua, fria
Por que tinha que ter sido assim?
Dessa época só guardo os brincos!





