Voltou a malhar. Vai sempre que pode. Faz um esforço para ir pelo menos três vezes por semana. Sempre foi dada a rituais. Sentar na mesma cadeira, arrumar as coisas da mesma forma, andar na mesma esteira... Gostava de ficar em frente ao janelão que dá vista para o Parque da Cidade, lindo pedaço de mata atlântica que resiste espremido entre os prédios e a favela que o querem engolir. Fica olhando o céu, as nuvens, aproveitando a brisa que bate vez em quando, todos os matizes de verde que as árvores oferecem ao entardecer. Bem na sua frente, na altura dos seus olhos, firmemente fincada no chão fica uma bela e frondosa mangueira. Ao longo do ano acompanha a floração, os frutos aparecerem e crescerem, até que surgem os predadores jogando paus, pedras e futucando com vara a pobre árvore, que outra alternativa não tem a não ser ir derribando as mangas que vão ser consumidas, se maduras, ou deixadas ali mesmo no chão se não estão no ponto. Pois bem, olhando para aquela árvore, a música nos ouvidos, o pensamento vagando, notou que havia um vazio na folhagem, mais ou menos no meio da copa, como um nicho na escura massa de folhas. Pensou em como seria fácil alguém instalar-se ali e ficar quase invisível aos olhos dos inocentes passantes. Viu um vulto escuro, que se movia ao sabor do vento e do sol que entrava pelas frestas, um atirador de elite mirando em sua direção, com uma arma daquelas dos filmes de espionagem, chegou a sentir a luz do laser vermelho em sua testa, entre os olhos e como em Matrix viu o fulgor do disparo, a bala vindo em sua direção, certeira, sem chance, mortal. Não esboçou nenhuma reação. Sabia tratar-se apenas de sua imaginação, não corria nenhum perigo, não tinha inimigos, ninguém que pudesse desejar sua morte. Racional, ficou pensando que a loucura deve ser assim, só que nesse caso a pessoa acredita, confunde realidade e imaginação, sente-se ameaçada, perseguida, tem que revidar à altura. Entra numa escola e mata. Os médicos justificam sua ação com base nas reações químicas que confundem seu cérebro e alteram sua percepção da realidade... Nasceu assim? Tornou-se assim? Vítima ou assassino frio? Para as famílias que perderam seus filhos nada disso importa, a dor, assim como a loucura, tolda a visão, confunde a razão. A dor da ausência, ao contrário das balas, mata lentamente, numa espécie de tortura e sofrimento que parecem não ter fim.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Arte em Construção
Arte em Construção
Essa expressão me ocorreu olhando para o quadro inacabado. É também o título de duas exposições promovidas por Edson Calmon. Eu participei de uma delas e a história desse nome é interessante.
Edson ministrava seu curso de arte nas instalações do Espaço Oikos, que se encontrava em fase de ampliação. Havia portanto uma espécie de sala / galpão onde eram visíveis os sinais da reforma, com material de construção espalhado pelo chão e paredes inacabadas.
Pois bem, Edson com sua mente brilhante e criativa, resolveu fazer uma exposição dos trabalhos de seus alunos nesse espaço, fazendo um link entre a construção civil e a construção das obras de seus “discípulos”. Nasceu assim a exposição Arte em Construção I :
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Painel na entrada da "galeria" |
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Detalhe do painel |
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Edson e sua lendária calça e sapatos pintados |
Arte em Construção II ocorreu no Espaço do Artista, desta vez numa galeria “tradicional”. Olhem aí minha parede com meus três Picassos, Mulheres de Abril, Barcelona, Madri e Penso, Logo, Flutuo:
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Edward Hopper
“O grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão”.
Ralph Waldo Emerson
“O começo e o fim de toda atividade literária é a reprodução do mundo que me cerca por meio do mundo que está dentro de mim”.
Goethe
Essas duas frases estão numa matéria da Veja sobre Edward Hopper. A primeira é de um ensaio que ele lia todos os dias e a segunda de um verso que carregava na carteira. Imagino que estas duas afirmações deviam servir para ele como um tipo de lembrete, de norte, de mapa ou bússola, ou talvez fossem a descrição do que ele acreditava e orientava sua produção.
Segundo a mesma matéria, Hopper retrata a solidão, a melancolia da existência em suas telas. Eu, quando olho um quadro de Hopper tenho a sensação de um momento suspenso no tempo, as imagens que retratam cenas banais do cotidiano transmitem uma estranheza difícil de descrever. Suas paisagens, interiores e exteriores são normalmente habitadas por uma pessoa apenas, quando aparecem mais pessoas é como se não houvesse possibilidade de comunicação entre elas, como se fossem estranhas umas às outras, como se cada uma estivesse imersa no seu próprio mundo.
Gosto muito dos trabalhos de Hopper, das cores, da luz, da atmosfera às vezes opressiva de solidão que me corta a respiração, mas que ao mesmo tempo instiga e faz imaginar o que suas personagens carregam dentro de si.
Pois bem, lendo essa matéria me lembrei de uma grande amiga, artista talentosa, que recebeu de um amigo a encomenda de reproduzir um trabalho de Hopper. Ele tinha uma gravura que havia perdido as cores com o passar do tempo e como gostava imensamente da obra e do pintor, solicitou a minha amiga que fizesse para ele uma cópia do quadro.
Ressalte-se que, obviamente, não se trata de uma falsificação, as cores são outras, a técnica completamente diferente, assim como os materiais utilizados. Pois bem, ela aceitou o desafio e produziu um trabalho belíssimo que quero mostrar aqui. O nome da artista? Leda Farias, de quem tenho orgulho de ser amiga e a quem quero dedicar este post e a minha admiração pela artista e pela mulher que ela é.
Leda Farias
Sem título
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Casulo
Minha casa
Meu castelo
As tábuas que forram o chão
já conhecem meus passos
A luz difusa que atravessa a cortina
Aquece o ar
Aquece o corpo
que derrete em lágrimas de sal
Miro o espelho
do espelho
que me espelha
Aconchego
Acolhimento
Abraço
Ovo
Útero
Desapareço
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Colagens
Colagem do meu imaginário
Colagem do meu iPod
"
Umbigo
Meu nome é umbigo
Gosto muito de conversar comigo
É impossível ser feliz sozinho
Solidão não cura com aspirina
Nós já temos encontro marcado
Eu só não sei quando
Se daqui a dois dias
Se daqui a mil anos
Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro
Teus sinais me confundem
da cabeça aos pés
Mas se eu digo venha
Você traz a lenha
Pro meu fogo acender
Meu mundo você é quem faz
Música, letra e dança
Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Quando um certo alguém
Desperta um sentimento
É melhor não resistir
Procurei uma saída
O amor não tem
É só pensar em você
Que muda o dia
Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia
Um sol eu sou
Para o seu mar
Oh! meu amor
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Vamos fugir
A curiosidade de saber
O que me prende
O que me paralisa
Serão dois olhos negros como os teus
Que me farão cruzar a divisa
Se eu descer
Você suba aqui no meu pescoço
Faça dele seu almoço
Por você
Eu dançaria tango no teto
Meu bem você me dá água na boca
Mentiras sinceras me interessam
A conversa está boa
Mas está terminada
"
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Procura-se
2010 não foi um ano ruim. Em alguns aspectos, foi ótimo. Poderia ter sido fechado com chave de ouro, não fosse o e-mail recebido da Galeria onde estávamos (eu e Ivonete) pleiteando pauta para uma exposição no próximo ano. Nosso projeto não foi selecionado, sob a alegação de que: “ Em decorrência do número limitado de pautas, sua proposta para ocupação da galeria não foi selecionada para o ano de 2011.”
Que pena, o ano de 2011 começa com a procura de outro espaço para mostrar o trabalho produzido neste ano que se finda. Como escrevi em outra oportunidade: caio, levanto, volto a caminhar, apesar de não considerar este acontecimento propriamente uma queda, vejo-o mais como um pequeno, pequeníssimo, acidente de percurso.
Determinados espaços da cidade, em virtude das vantagens que oferecem, são muito procurados e como na Bahia há um excesso de artistas, como se diz por aí, baiano não nasce, estréia (acho que essa palavra perdeu o acento), é claro que não há lugar para todos.
Tínhamos muita confiança na qualidade do nosso trabalho e não termos sido selecionadas foi uma balde de água fria em nossas pretensões, que não são grandes no final das contas. Resta-nos, portanto, buscar outro espaço por aí que nos acolha.
Aproveito a oportunidade para desejar a todos um feliz final de ano e um 2011 pleno de saúde, felicidade e muitas realizações.
Um forte, apertado e afetuoso abraço em cada um que acompanha meu percurso e me proporciona tanta felicidade ao deixar neste espaço mensagens tão carinhosas e motivadoras.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Detalhe II
...
Meu olhar busca aflito
a serenidade do encontro
O espelho me devolve
a turbulência da dúvida
O infinito não me preenche
O vazio transborda
Negro como a escuridão
de uma noite sem sonhos
...
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