quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bienal





Esta sou eu, na Bienal de São Paulo, MAM, 2006, usando um dos objetos feitos em plástico transparente, que fazia parte da exposição.

Sempre que posso vou a museus, visito Bienais, Salões de Arte, faz parte do meu aprendizado como artista observar o que está acontecendo, quais as novidades na área das artes, mais especificamente na pintura.

Tenho muitas indagações com relação ao que ainda pode ser produzido em pintura que possa ser considerado novidade ou inovação. Tenho a sensação de que tudo já foi feito. Por isso leio, procuro me informar para entender a arte, sua evolução até aqui e para onde ela caminha.

Observo, com alguma tristeza, que a pintura tem perdido espaço para as instalações nos eventos e exposições de arte. E, cá para nós, muitas delas são um amontoado de objetos com muito pouca arte.

Pesquisando na net sobre o assunto, encontrei uma entrevista de Antônio Veronese. Me identifiquei com suas idéias a respeito das bobagens que povoam as Bienais e resolvi transcreve-la aqui para a crítica e a reflexão de vocês que, como eu, se interessam pelo assunto:

"Antônio Veronese, o artista plástico brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25ª. Bienal de SP a convite do Jornal da Tarde e analisou o que vale e o que não vale o ingresso.

Segue a transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002.

Você , quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso não é antidemocrático?

Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas instalações deveriam estar na Disneyworld e não nos museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de tiro-ao-alvo.

O que gerou a sua reação encolerizada no Whitney?

Não foi uma reação encolerizada. Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado tendo que pagar para ter acesso a um amontoado de futilidades. Os “autores” destes farsismos se trancam no banheiro e riem de todos nós. O que fazem é terrorismo estético. Eles sabem que não têm nenhum valor - eles estão conscientes disso - mas contam com a cumplicidade de curadores e com a covardia da crítica.

Você chama a esses artistas de filhos espúrios de Duchamp. Por quê?

A criação artística é produto de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. O artista tem que conhecer a Arte que o antecedeu, mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do trabalho contínuo, do lento avançar naquilo em que trabalha. Cezanne, aos 64 anos já havia parido o modernismo, mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim em sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação. Esse pessoal das instalações é culto, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O Urinol de Duchamp foi uma consequência da sua busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinidamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso que eu digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp.

Você não está, com essa tese, restringindo a manifestação artística à pintura e à escultura? Que diferença tem essa sua crítica da que sofreram os impressionistas no final do século XIX?

A Arte é da natureza dos homens. Ela não é espontânea na natureza. É produto da interferência do homem, que não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade de milagre. Para Malraux os artistas não são copistas de Deus , mas seus rivais. A arte contemporânea quer socializar o direito de produzir arte, antes restrito aos artistas. O que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou de uma mesa com maçãs de Cezanne. Para mim comparar a minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é uma inocência. Uma vez eu “incorporei” minha bota de couro a uma instalação no Whitney do Soho em Nova York. Só fui buscá-la no dia seguinte. E ela estava lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se deu conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação. Isso seria impossível com uma tela de Bacon ou de Lucien Freud. A crítica foi, durante muitas vezes na História, preconceituosa e totalitarista. Mas questionar meu direito de criticar agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade em uma simples aquarela de Egon Schiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida. A Arte precisa do espanto, mas só os pobres de espírito se espantam com o ordinário."

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Também os nossos queridos Zeca Baleiro e Zé Ramalho se manifestaram brilhantemente sobre o assunto ao compor Bienal, transcrita a seguir, uma crítica bem humorada das mostras de arte contemporânea:

BIENAL
Composição: Zeca Baleiro / Zé Ramalho

Desmaterializando a obra de arte no fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta

Teu conceito parece, à primeira vista,
Um barrococó figurativo neo-expressionista
Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista
Ao cabo da revalorização da natureza morta

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
"Meu filho, isso é mais estranho que o cu da gia
E muito mais feio que um hipopótamo insone"

Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte desmaterializada no presente contexto
Reciclando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana

Com a graça de Deus e Basquiá
Nova York, me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana

Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria

15 comentários:

Bípede Falante disse...

Lucia, li o post, a entrevista e a música. Agora, vou pensar um pouco sobre o assunto. Não sei ainda o que penso. Por hora, penso bobagens :) Então, volto a comentar mais tarde. Beijo. Bípede

Janaina Amado disse...

Também gosto muito de ir a exposições, Lucia. Em todo lugar a que vou, procuro ver exposições. Gosto de algumas instalações, e de outras, não, assim como gosto de certas pinturas e não gosto de outras.
Curti muito vê-la na foto, assim tenho uma idéia de como você é fisicamente rs rs

Lucia Alfaya disse...

Bípede

que pena que você não escreveu as bobagens que estava pensando. Às vezes, os primeiros pensamentos são os mais interessantes. Mas estou aguardando sua reflexão.

Janaina

É evidente que em todas as manifestações artísticas há coisas boas e coisas ruins, assim também acontece com a pintura e com a instalação. O que às vezes me irrita é a falta de significado em algo que deve sua existência justamente ao conceito. Quando o artista tem que escrever o porque de sua obra e o espectador tem de ler para entender do que se trata, é evidente que algo se perdeu. A obra de arte deveria falar por si.

Terráqueo disse...

Lucia,
Seus trabalhos são extremamente criativos, personalizados, e com um valor estético imenso. Não me agrada a estética da feiura ou do grotesco, tão em voga hoje em dia. Salvo exceções, e são muito poucas, considero a maior parte das instalações engodos. Tenho a impressão que pessoas inteligentes, acordam um dia e decidem ser artistas. Assim, criam alguns cenários os quais são rotulados de arte. Para eles, deixo sempre a mesma críitica: "Essa obra de arte demonstra a perplexidade do ser humano diante do infinito.".
Beijos,
Terráqueo

Chorik disse...

Tô que nem a bípede. Tenho que pensar. E provavelmente, ao contrário, dela, não vou chegar a conclusão alguma!

Francis disse...

Olá Lucia, só agora vi a pergunta que me fez, a propósito de uma foto no post do minimo ajuste. infelizmente não sei quem é o autor, mas aqui fica o link onde está esta e outras fotos dntro do mesmo estilo.
http://www.yeeta.com/_Amazing_Art_What_s_mean

Bípede Falante disse...

Lucia, concordo em parte com você. De fato, tem muito lixo sem significado algum exposto por aí. "Instalações" que não despertam uma única inquietação em que as observa a gente encontra sem procurar. Cansei de ver material definitivamente morto, sem o toque do homem e de sua mente. Mas também já vi coisas interessantes, inclusive feita por artistas polêmicos com Joseph Beuys, que acreditava que criadores "artistas" seriam todos aqueles que conhecessem a línguagem do mundo. Eu acho essa possibilidade bastante fantasiosa. Para mim, a fruição de uma obra é, sem dúvida, uma forma de sensibilidade e de recriação do simbólico alheio e do próprio, mas não é a capacidade criativa em si. Por que ele pensava dessa maneira eu não sei. A única obra dele que vi pessoalmente foi um piano coberto por uma espécie de lona/feltro cinza. Vi no Centre Pompidou em meio a instalações de outros artistas e foi emocionante. Porque reconheci imediatamente o elefante cobiçado e morto, transformado em instrumento a qualquer custo. Então, resumindo, penso que a arte não tem meio de transporte tão definido. Beijo. Bípede.
P.S. O Mínimo Ajuste está precisando de interessantes e provocantes imagens. A senhorita não tem alguma para enviar???

Bípede Falante disse...

Lucia, encontrei, no google, o piano elefante de que falei. Vou colocar a imagem no meu blog. Assim em uma foto não parece grande coisa, mas ao vivo e em cores foi impactante.

I.Moniz Pacheco disse...

Quanta propriedade tem o Veronese ao falar sobre arte atual! Penso igualzinho a ele, e na sua entrevista fica ainda mais clara a nossa comunhão de ideias.
Adorei também a opinião do Terráqueo e o recado então...
Gosto muito de pintura, escultura, desenho, gravura, mas as instalações (com exceções, claro)me parecem um pouco sem sentido, sem beleza, sem choque, sem alegria, enfim, não me emocionam nem no bom nem no mau sentido.
No entanto, a questão não é apenas estética. A arte é controversa. Sempre. Fico com Veronese e Terráqueo então.

Lucia Alfaya disse...

Terráqueo

"Essa obra de arte demonstra a perplexidade do ser humano diante do infinito."

Adorei o comentário e aposto que muitos deles ainda devem sertir-se lisonjeados, imaginando o quão profunda foi a impressão deixada por sua "obra". rsrsrs

Bjs

Lucia Alfaya disse...

Francis

obrigada pela informação.

Lucia Alfaya disse...

Bípede, concordo com você, por concordar em parte comigo. Na verdade, eu não quis desqualificar todas as instalações, apenas algumas. Se tomarmos por exemplo os trabalhos de Waltercio Caldas ou de Wesley Duke Lee, veremos o quanto essa modalidade de arte é bela, significativa, quando bem explorada e com conhecimento de causa. Infelizmente em todas as áreas há os oportunistas de plantão e os que se deixam enganar ou manipular por eles. O importante é ir educando o olhar para tentar separar o joio do trigo, a fraude do original. Bjs.
PS: vou mandar mais algumas imagens para o Mínimo Ajuste.

Lucia Alfaya disse...

Ivonete, em nossas discussões no ateliê com o mestre Edson sempre aprendemos um pouco sobre a arte, sua história e significados. Ainda estamos longe da erudição do mestre, mas algumas ferramentas ele já nos forneceu para irmos garimpando por aí.
Bjs.

Paulo Amaral disse...

Lúcia:

Muito boa esta postagem. Tem muito a ver com uma resenha que fiz do livro de Luciano Trigo " A Grande Feira ", onde se dicute o mesmo assunto. Dá uma visitada em meu blog e lê. Abraços.

Lucia Alfaya disse...

Paulo Amaral, obrigada pela indicação, passarei por lá com certeza para ler o texto recomendado e deixarei minha impressão no Livro de Visitas. Grande abraço.